Danatinho

A ESTREIA QUE FALTAVA PARA ANIMAR A FESTA


O CORAÇÃO RETRÔ-FUTURISTA DE DONATINHO BATE FORTE NO CHÃO DO BRASIL


Era o ano de 97 quando um certo carioca de 12 anos ouviu pela primeira vez “Head Hunters”, álbum de Herbie Hancock, num dos instantes mágicos em que a arte faz seu papel sublime de mudar paradigmas.

É verdade que Donatinho nunca pode reclamar do playground à sua disposição nas estantes e musicalidade do pai, João Donato, o enfant terrible da música brasileira cada vez mais cultuado, mas foi ao colocar nos ouvidos a fusão de jazz e sintetizadores do disco do genial pianista americano que foi definitivamente atingido pelo cupido.

Autodidata – “um caminho mais difícil, certamente, mas com possibilidades mais originais”, diz ele –, aos 30 anos, é conhecido como um dos mais criativos e inquietos talentos dos novos ares da música brasileira. Os sons que saem de sua coleção de teclados vintage e de suas programações já há uma década vêm contribuindo para a música de artistas como Gal Costa, Paralamas do Sucesso, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Vanessa da Mata, Ana Carolina, Ivete Sangalo e Donatão e até a dupla Sly & Robbie, entre outros nomes.

E em Zambê, seu álbum solo de estreia, lançamento do selo Pimba, estes sons se mostram em sua amplitude. A capa dá mostras do que está por vir. Seu figurino cyber divide a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, com um prosaico carrinho de rolimã, brinquedo responsável pela diversão de gerações de crianças muito antes de iPads dominarem as mesas de jantar. Pois o carrinho de rolimã se mantém firme e forte, mas agora em versão high tech, enfeitado de LEDs coloridos. Futurismo-retrô. E brasileiro.

House, electro, trip-hop, hip-hop, dub e outras vertentes eletrônicas vindas de seus sintetizadores, piano rhodes, baixo synth e programações sedimentam as faixas, mas sempre dispostos a passos inusitados com parceiros bem nacionais, como samba, choro, moda de viola caipira, côco, ponto de candomblé, canto indígena e carimbó. “Sou encantado pela música brasileira. Culturalmente falando, o que nos une é a língua, porque há muitos países dentro do Brasil, e sonoridades regionais riquíssimas, mas pouco valorizadas. Como um carioca vai saber o que é o carimbó, se não toca no rádio?”, comenta ele.

Voilà! Sua relação com a pluralidade musical brasileira é tão legítima que sequer passou pela cabeça fazer um disco temático. “Simplesmente entrei em estúdio e fui chamando os amigos com quem tenho sintonias musicais”.

Enquanto em “Vidas Melhores” um baixo synth divide a pista de dança com uma inusitada viola caipira tocada por Plinio Profeta, na próxima música, atenção ao passo, o ritmo mudou. Lá vem Dona Onete do alto de seu posto de musa do carimbó chamegado paraense em “Dança dos Urubus”, assinada a seis mãos com ela e Kassin, que participa também com a guitarra. Se em “Ladeira do Samba”, o piano rhodes requebra com a melhor tradição do samba carioca vinda da cuíca, repique e ganza de Pretinho da Serrinha, em “Janaína” a maranhense Rita Benneditto (ex Rita Ribeiro) traz para o baile suas letras e vocais influenciados por pontos de candomblé.

Zambê é um disco de canções originais, gravado sem os samples geralmente predominantes nos trabalhos que propõem a fusão de música eletrônica e brasilidades, permeado pelos sons vintage de seus teclados analógicos. “Desde que experimentei um instrumento analógico, nunca mais quis saber dos digitais”. Uma mistura inteligente e sui generis destes elementos sem soar meramente lounge.

Produzido a quatro mãos com Alexandre Moreira, integrante do grupo Bossacucanova, é, decididamente, um disco de (muitos) amigos. E dedicado a um deles, o trompetista Marcio Montarroyos, que faleceu poucos dias depois de gravar “Sopro”, composta com Donatinho. Marlon 7, Stephan San Juan, Davi Moraes, Felipe Pinaud, Totonho (da banda Totonho e os Cabra), Akira Presidente e a cantora Luka são alguns dos outros vários nomes entre os convidados.

Um parque de diversões particular, repleto de amigos e brinquedos para um novo mago dos teclados se divertir com seu carrinho de rolimã – de LED, claro.

ZAMBÊ
1. Ladeira do Samba (Donatinho / Maria Joana)
2. Janaína (Donatinho / Rita Benneditto)
3. Ladrão de Alma (Donatinho / Fernando Caneca / Totonho Cabra)
4. Choro da Nova Escola (Donatinho / Felipe Pinaud / Akira Presidente)
5. Vidas Melhores (Donatinho / Plínio Profeta)
6. Dança dos Urubus (Donatinho / Kassin / Dona Onete)
7. O Sopro (Donatinho / Márcio Montarroyos)
8. Índios (Donatinho / Luka)
9. Discurso Independente (Donatinho / Tamy)
10. Marrento (Donatinho / Marlon 7)